quinta-feira, junho 03, 2004

Que título é que isto merece?

20:52

Nestes últimos dias tenho estado meio arredado das lides bloguísticas e como hoje estive um pouco mais folgado resolvi pôr as minhas leituras em dia. Dei por mim no Renas e constatei que o tema sensação desta semana (para além da estreia no canal 2 da mini-série "Anjos na América", que ainda não tive oportunidade de ver) parece ter sido um post sobre a Marcha e o cartaz do "Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero" publicado pelo Drocas no dia 2 de Junho (ainda não sei como fazer um link directo para um post, conto com uma alma caridosa que me explique como se faz). Mais acima li com atenção o comentário publicado pelo Boss e os demais 36 comentários existentes na altura...

Empolado por essas leituras, não pude deixar de associar o tema com alguns episódios que tenho vindo a viver com uma grande amiga minha. Há já algum tempo que penso em relatar esses episódios aqui na blogayesfera mas tenho tido dificuldades em passá-los para a sua forma escrita. Mas apesar do difícil parto, vou continuar a cerrar os dentes e a soprar com força, talvez a criança acabe por sair...

Ora bem, eu devo conhecer a Rute (chamemos-lhe assim, porque se até eu tenho direito a um pseudónimo, porque razão não há-de ela ter também...), dizia eu que conheço a Rute há uns 17 anos, se o Alzheimer não me atraiçoa. Durante todo esse tempo temos sido amigos quase inseparáveis. Digo quase inseparáveis, porque há coisa de uns 7, 8 anos ela conheceu uma bela moça do norte do país, engraçou-se por ela, e um ano depois fez as malas e partiu para só voltar em cada vez mais esporádicos fins-de-semana, sempre curtos para pormos toda a nossa conversa em dia. Posso dizer-vos que gosto muito dela e que fiquei muito contente com as decisões que ela tomou, mas cada vez me sinto mais distante dela. Não falo dos 300 kms que nos separam, talvez apenas tenhamos crescido e seguido direcções diferentes, mas sobretudo é ao nível daquilo que pensamos sobre a própria homossexualidade que sinto um maior distanciamento entre nós. A distância é meramente na forma de estar na vida e nada mais. A Rute há-de ser sempre a Rute e terá sempre uma extrema importância na minha vida, mesmo que por uma eventualidade deixássemos de ser amigos, que não é o caso. Nunca tivémos aquelas discussões aguerridas que se costumam ter com os amigos, ou com quem nos merece mais confiança. Com eles mais facilmente nos agarramos às nossas convicções e ideias e as defendemos mais veementemente e o politicamente correcto normalmente vai sempre à fava.

Ao longo destes últimos 17 anos de amizade, a única vez que discuti verdadeiramente com ela foi sobre "homossexualidade". As divergências de opiniões foram de tal ordem que acabámos os dois aos gritos enquanto conduzia e démos por nós um pouco surpreendidos e até mesmo constrangidos com a situação. Fomos depois beber um copo com uns amigos, lá acalmámos os dois, e lembro-me perfeitamente de termos comentado com eles, quase em choque, que tínhamos os dois discutido à séria, mas tudo passou... como deve acontecer entre dois bons amigos.

A discussão em causa foi exactamente sobre a questão do "orgulho" gay e sobre os arraiais e marchas de celebração desse suposto "orgulho". Como já devem ter reparado pelas aspas, é uma expressão com a qual eu não concordo, porque não a considero uma expressão feliz. Para já basta começar pelo próprio significado literal da palavra em causa, ora segundo o meu dicionário on-line predilecto orgulho significa um exagerado conceito que a pessoa faz de si própria, um sentimento elevado da sua dignidade pessoal; sinónimo para soberba, pundonor, brio, vaidade, empáfia. Ora se por um lado, os conceitos são o que são e valem o que valem, a escolha dos mesmos quando se trata de questões delicadas e "supostamente" representativas de um "segmento" de uma população minoritária que reinvendica os seus legítimos direitos, deveria ser alvo de uma maior reflexão por parte daqueles que promovem este tipo de associativismos e diligências. E mais coisa menos coisa, foi isso que lhe disse. Que não tinha nenhum orgulho nenhum particular em ser gay. Porque é que haveria de ter? Porque é que o facto de ser gay me faz superior ou inferior a qualquer outra tendência sexual? Absolutamente, até sou uma pessoa orgulhosa que por vezes tem algumas dificuldades em aceitar os seus erros e as críticas dos outros, reconheço. Mas orgulho em gostar de homens? Ora mas porque carga d'água...??? Gosto e pronto. Não tenho nada mais a declarar... E atenção, para que fique claro sou defensor de que tem de haver grupos de pressão organizados para que se mude o estado das coisas e que as mentalidades possam evoluir! Agora, a forma como se faz isso é que é discutível. Eu pessoalmente não gosto das organizações que me "representam". Assumo: Não gosto da Ilga, não gosto da Opus Gay (nem da Dei). E sim, sei o que aconteceu no Stonewall, sei quem foi Matthew Sheppard e como ele morreu. De qualquer forma nunca gostei de associativismos. A minha perspectiva de tentar mudar o mundo, é tentar mudar aqueles que me são mais próximos. Para mim, conseguir fazer com que uma pessoa entenda, respeite, e me continue a tratar de igual para igual é para mim uma vitória. Começa por ser uma pequena vitória, mas quando começamos a ver que à nossa volta, uma pessoa e depois outra e outra e mais outra vão percebendo, vão aceitando, e começam a perceber que afinal ser gay não é um bicho-de-sete-cabeças, é uma vitória.

Quando começam a perguntar "o BD está bom? e depois de algum tempo perguntam o teu namorado está bom?" quando dizem "E pá, aparece mais vezes, e olha trás também o BD" e coisa depois fica no "Venham os dois jantar a nossa casa" e agora qualquer que seja o convite seja é sempre em nome dos dois, considero isso como uma vitória. Por mais pequena que seja "o mundo pulou e avançou." Se todos fizermos isso, conseguimos mudar comportamentos e mentalidades.

Mas também não tenho nenhuma fórmula mágica. Faço apenas o que acho melhor para mim. É verdade que ainda vivo numa clandestinidade confortável... não é por certo aquilo que eu mais desejo. Num mundo ideal pintava tudo de cores diferentes, não necessariamente tudo arco-íris. Mas infelizmente, não vivo num mundo ideal e esta foi a forma como decidi conduzir a minha vida, de vitória em vitória esperando viver até à vitória final...

Não foram assim que se fizeram as grandes conquistas dos direitos humanos??? Não foi assim que as mulheres tiveram direito ao voto? Ou acham que foi só por terem queimado uns soutiens na praça pública e que os homens, esses grandes brojeços da altura ficaram cheios de medo que as suas estimadas esposas partissem para o passo seguinte e viessem para a rua de mamocas ao léu e lá lhes fizeram um favorzinho antes que maior mal viesse ao mundo? São símbolos bem sei. Mas sobre isso haveria muito que dizer... mas não cabe tudo já nestas extensas linhas...

Pois bem... adiante.. .mais um sopro, arre que a criança nunca mais nasce...

Vamos ao assunto... a Rute num dos fins-de-semana em que veio de visita aos pais, telefonou-me para bebermos um café. Pelo caminho pôs-me a par das novidades, sempre contadas a correr, até que veio um assunto à baila:

Rute: - Olha lá MC, sabes que o Fulano tal e a Fulana tal se vão casar?? ( O Sr. Fulano Tal, e a Sra. Fulana tal são nossos conhecidos, namoraram durante uma série de anos, desejam ter filhos juntos, amam-se e decidiram viver em conjunto e formalizar o acontecimento, não tanto pelo acto legal (leia-se civil) em si, mas por aspectos, digamos mais economico-culturais).
MC: - A sério? - Respondi eu - Bem depois de todos estes anos também era suposto (como quem diz, "era de prever").

Depois do ter dito o "era suposto", a Rute lança-me um olhar daqueles... e diz-me "Então estás parvo?? Agora as pessoas têm de se casar? Era suposto!!! Tens consciência do que estás a dizer??? Era suposto porquê?... Até parece que é obrigatório!"... etc, etc... nem me lembro bem das palavras de tão atónito que fiquei. Deixei-me estar calado, mudei de assunto e fomos beber o café. Talvez o "suposto" não fosse a palavra mais sensata... dentro dos cânones da paranóia do politicamente correcto como se o ter de se supôr tivesse algo a ver com a standarização de modelos de padrões comportamentais impingidos pela sociedade. Para mim, a abordagem ao assunto, e a consequente suposição era meramente especulativa (consultem um dicionário e procurem a palavra supor e vejam os resultados). Ora temos como sinónimos, o presumir que, o imaginar... de facto, não era difícil imaginar que mais tarde ou mais cedo aqueles dois acabariam mesmo por se juntar e formalizar a dita união através do sagrado(!) matrimónio...

Afinal, que botão é que eu tinha carregado à rapariga para ela sentir-se tão desconfortada com a ideia de dois namorados, heteros, casarem-se? Simplesmente por não poder fazer o mesmo legalmente? Não sei apetece-me fazer-lhe muitas perguntas sobre isso. Um dia quem sabe, posso ficar mais esclarecido numa conversa serena com ela...

Lembro de à noite ter comentado o meu desconforto com o meu homem, e o meu estranhamento com aquela atitude. Já tinha reparado numa certa atitude militante por parte da Rute em relação à não-homossexualidade. Tudo na vida dela acaba neste momento por ter de quase obrigatoriamente passar por ambientes gay, filmes gay, até quase um certo desespero em ter amigos gay (leia-se fufas). Eu também frequento ocasionalmente esses ambientes, também gosto da temática em si, também sinto falta de ter verdadeiros amigos gay (leia-se gays), pessoas com quem me identifico e com quem possa estar "à vontade" com o meu namorado. Mas também me identifico com outras pessoas, outros pontos de vista, e quanto às tendências sexuais, por amor da Santa! Tenho mais do que fazer do que me interessar sobre o que a pessoa faz com a sua pilita ou com a sua respectiva parrachita. Meus amigos, tenho mesmo mais que fazer!

Fiquei a pensar se ela não pensaria que nós deveríamos ser o exemplo a tomar por todos os outros, que por sermos os "coitadinhos reprimidos pela sociedade" tivéssemos de ser melhores que os restantes. Mas a confirmação consciente das minhas já longas suspeitas chegaram no fim de semana passado: A Rute é uma heterofóbica inconsciente. Fiquei escandalizado! Digo mesmo, fiquei assustado... Aquela pessoa que eu julgava conhecer tão bem, agia precisamente da mesma forma que as pessoas que ela condenava por serem homofóbicas e por não respeitarem a sua forma de ser feliz, a sua forma de viver, a sua preferência sexual.

Foi assim, estávamos apenas a comentar os últimos filmes que tínhamos visto. Eu comentei que tinha ido ver o "Day After Tomorrow" e que tinha gostado muito, era um bom filme de entretenimento e que fugia um pouco ao padrão hollywoodesco dos finais felizes (apesar daquela teia toda à volta do pai-filho, mas compreensível até para a acção dramática e humana do filme em questão)ao qual ela me respondeu que não tinha gostado nada. Que sim senhor, os efeitos especiais estavam muito bons, muito interessantes, mas que era uma grande lamechice, e que tinha detestado o enredo à volta do puto que se apaixona pela gaja e que faz tudo para a salvar... (confesso que quando vi o filme nem dei importância a esse aspecto, por o considerar tão comezinho, tão comum... Alguém apaixonar-se por alguém faz parte do universo cinematográfico e sejamos realistas isso acontece à nossa volta todos os dias!). Disse ainda que nos filmes tinham sempre que pôr um casalinho hetero, enfim... achei aquilo um chorrilho de disparates que lhe saía da boca para fora. Perguntei interiormente, ora se diz que 10% da população é gay, logo a mais representativa são os outros 90%, que não são nem mais nem menos que a minoria. Não será lógico pensar que as referências mais usuais sejam precisamente a esses 90%? Estaremos nós a criar uma paranóia colectiva de perseguição só porque as imagens ,mais comuns (estou a evitar a todo o custo a palavra "normal" não vá alguém ter uma indigestão) que passam são as representativas desses 90%?

Mais uma vez este vosso MC calou-se e mudou de assunto. Mas fiquei preocupado. Ela era de facto uma heterofóbica, sem o saber... Fiquei sem perceber se no filme estivessem dois homens separados pela neve e pelos ciclones, se ela não seria a primeira da fila a aplaudir de pé! Só pela mera representação de dois homossexuais na tela!

É por isso que me irrita toda esta militância, este associativismo, como se o mundo fosse o pequeno guetto, onde uma vez por ano se exterioriza nas ruas mas no resto do ano volta-se para dentro do armário. Lembro-me de ter ido a vários arraiais com a Rute porque ela fazia muita questão em ir e eu ia porque olha, sempre se bebia umas bejecas, como em qualquer outro lugar. Ficávamos horas, de pé, a olhar que nem uns monos para quem passava porque éramos só ali os dois. Mas pronto, ela saía com a sensação que tinha contribuído para mudar o mundo. Que tinha sido um número e engrossar as fileiras. Tiveram 1000 pessoas! 2000, 3000... Ena! Somos TANTAS! Que bom, já não me sinto tão só! Mas depois andava a fugir da câmaras fotográficas e de televisão (mais preocupadas em ver as malucas de plumas, quais castratti do século XXI - Será um bom tema para um outro post a dos castratti!)... Ora com isto tudo só penso nas muitas Rutes que existem por aí, que sofrem na pele todos os dias as injustiças da homofobia. Mas vamos combater isso com as mesmas armas? Duvido que seja uma estratégia que resulte.

Foi um parto difícil este post. Apetecia-me dizer muito mais. Sinto que fui muitas vezes confuso, talvez incoerente, talvez injusto, talvez... não sei. Mas precisava de desabafar. Desculpem lá qualquer coisinha... Termino apenas com uma mensagem que li no Conversas Coloridas para cada um de vós "Trata os outros como queres que te tratem a ti". Apenas isso.

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