Alguém num livro, terá dito que (e passo a transcrever numa tradução livre) o Becas e o Egas "se comportavam de uma maneira carinhosa e discreta, como milhares de homens e mulheres homossexuais. Têm o seu trabalho, estão integrados numa comunidade e vivem juntos numa casa impecavelmente decorada." Este comentário deu azo ao nascimento de um mito urbano que conduziu a um processo em tribunal. Por essa altura, o boato cresceu de tal forma que a produtora da série, a Children's Television Workshop sentiu-se obrigada a vir a público defender "a moral e os bons costumes" com um lacónico comunicado numa conferência de impressa que transcrevo em inglês:
"Bert and Ernie, who've been on Sesame Street for 25 years, do not portray a gay couple, and there are no plans for them to do so in the future. They are puppets, not humans. Like all the Muppets created for Sesame Street, they were designed to help educate preschoolers. Bert and Ernie are characters who help demonstrate to children that despite their differences, they can be good friends."
Até aí tudo bem. Qualquer produtora tem o direito de escolher o destino das suas personagens, e o facto é que tudo isso não passava de um boato. Mas ao vir defender a já referida "moral e os bons costumes" a última frase não cai lá muito bem. Não são necessárias muitas reflexões para perceber que a homossexualidade não fazia parte do projecto de tolerância e da diferença para a Children's Network. Por outro lado, a frase de que eles apenas "são bonecos e não humanos" é igualmente ridícula, uma vez que os bonecos também não têm melhores amigos nem levam um patinho de borracha para tomar banho com eles. São simplesmente representações humanas e são aquilo que os seus criadores querem que eles sejam. Tal como qualquer pessoa, com o mínimo de conhecimento em psicologia, sabe que é isso que qualquer criança normal faz com um amigo de peluche.
Em 1994, o Reverendo Joseph Chambers tentou banir estas duas personagens do programa baseando-se numa lei sulista anti-gay e no seu programa de rádio contestou que o Egas e o Becas eram duas personagens subliminares que incitavam a um estilo de vida homossexual. Terá ele dito que "são dois homens adultos que partilham a mesma casa e a mesma cama. Partilham roupas, comem e cozinham juntos e têm muitas características femininas" [Será do patinho amarelo de borracha???].
Outros rumores surgiram ainda nos anos seguintes referindo que o Egas e o Becas se tinham casado num episódio anterior, ou que se viriam a casar num futuro episódio. Que o Becas iria morrer de uma doença perigosa, mortal e prolongada (SIDA?), etc, etc...
O que é certo, é que desconhecendo toda esta polémica, sempre fiquei intrigado com a natureza da relação entre estas duas personagens. Longe de alguma vez pensar numa relação amorosa. Mas estranhava o facto de eles não serem irmãos... pois os irmãos não se costumam tratar por "o meu amigo" ou o "meu companheiro". Eram adultos, porque não tinham mais ninguém a morar com eles, e eram eles que cuidavam da casa. Nas paredes estavam penduradas fotografias deles abraçados. Bom, talvez vivessem em economia comum e fosse apenas uma forma de pouparem uns trocos no IRS. Se são gays ou não, pouco me importa, mas para mim transmitiram valores de igualdade, e de que era possível dois homens viverem juntos e serem os melhores compinchas. Parabéns Children's Television, conseguiram educar-me!
Mais recentemente em 2002, a Sesame Workshop, interpôs uma acção em tribunal contra Peter Spears que terá feito uma curta-metragem de 8 minutos, chamada "Ernest and Bertram" apresentada no Sundance Film Festival. Essa curta-metragem mostrava uma vida decadente homossexual dos dois referidos personagens. Conseguiram ganhar a acção com alegadas questões de propriedade intelectual e copyright e lá se foi a 1º Emenda norte-americana. Por isso o filme está fora de circulação como podem ver no site. (Se alguém o conseguir arranjar por favor, enviem-me uma cópia!!! Gostava muito de o ver!)
Este post é apenas a ponta do véu (já que falamos em casamento) para questões que realmente valem a pena debater. Não me esquecerei do assunto, aliás tenho-o em mente já há algum tempo para debater aqui no H2omens. Mas ficará para uma outra oportunidade. Agora tenho de ir a correr para não perder o meu herói gay preferido: o Teletubbie Roxo. Abraços.

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